Arquitetura Indígena: o que podemos aprender?

Arquitetura Indígena: o que podemos aprender?

O Connectarch falou com especialistas sobre as técnicas indígenas que podem ser replicadas nos centros urbanos

Por Ivan Dognani

A cultura indígena muitas vezes é vista apenas de maneira folclórica pela sociedade “desenvolvida” e “tecnológica”. Porém, os índios têm muito a nos ensinar. Seus conhecimentos milenares, passados de geração em geração, é que mantêm vivas diversas tribos espalhadas pelo nosso Brasil plural. Os índios podem nos ensinar muito, desde a arte até a cura. E por que não a arquitetura? Os primeiros habitantes do território brasileiro já realizavam construções com técnicas avançadas, utilizando recursos naturais e, portanto, sendo essencialmente vernacular. Toda essa expertise já inspirou e segue sendo referência em alguns projetos e produtos que contemplam a tecnologia arquitetônica e a cultura dos índios genuinamente brasileiros.

Índio também é High Tech

Em um papo exclusivo com o Connectarch, José Afonso Portocarrero, um dos principais arquitetos entusiastas e estudiosos a respeito da arquitetura indígena, afirma que a maioria de nós possui uma ideia que precisa ser desconstruída a respeito dos povos indígenas no Brasil, reflexo da própria sociedade. “Dá-se muito valor para a tecnologia high tech. Os índios utilizam o desenho como tecnologia e conseguem proporcionar excelente conforto em suas casas fazendo unicamente o uso de materiais como a palha e a madeira. Baixo custo com alto resultado!”, diz Portocarrero. À frente de um grandioso trabalho de pesquisa e documentação da habitação indígena na UFMT – Universidade Federal de Mato Grosso, através do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Grupo de pesquisas Tecnoíndia, Portocarrero também escreveu o livro “Tecnologia Indígena em Mato Grosso: Habitação”, publicado pela editora Entrelinhas, em que faz uma provocação necessária e estimula a reflexão sobre a questão indígena no país. Também contribui para a formação de novos arquitetos ministrando uma disciplina optativa chamada “Arquitetura vernacular: Introdução à arquitetura indígena do Brasil”.

“Faz-se necessário democratizar a arquitetura começando pela informação. Para muitos, um projeto arquitetônico ainda é algo inimaginável ou de custo extremamente elevado. Os ensinamentos das casas indígenas encontram aí um espaço imenso e possível de se explorar com custos reduzidos e que podem pouco a pouco fazer parte desse processo tão necessário”, comenta. Além disso, dá exemplos do que pode ser destacado e mais utilizado na arquitetura contemporânea. “Talvez a tiragem térmica que acontece naturalmente nas suas casas seja o melhor exemplo do uso da tecnologia indígena, combinada ao pé direito alto e forma aerodinâmica. Ao contrário disso, o uso excessivo de ar-condicionado torna a construção pouco saudável e mantém as pessoas como se fossem reféns”, completa.

Obras inspiradas na cultura indígena

Fonte: Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS).

Portocarrero é responsável pelo premiado projeto do Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS), localizado em Cuiabá, Mato Grosso. Referência em sustentabilidade, o edifício conquistou dois troféus no prêmio mundial de construções sustentáveis, o Breeam Awards. Realizada em Londres, a competição concedeu ao edifício o prêmio de melhor edificação sustentável na categoria “Novas Construções em Uso das Américas” e melhor prédio sustentável da premiação, eleito por voto popular digital. Foi construído em concreto aparente, tem fachadas de vidro e vantagens como: conforto térmico, aproveitamento máximo de luz natural, cobertura em duas cascas, que permite a refrigeração interna do prédio e a coleta de água da chuva – depois de filtrada é estocada para o uso na irrigação do jardim, lavagem de pisos e banheiros. “Penso que projetos que incorporam essas características independem de recursos e devem estar presentes especialmente em obras públicas, e em escolas, especialmente, que assim assumem caráter didático”. Ele acredita que a educação e a desconstrução a respeito da cultura indígena é peça-chave para uma transição equilibrada.

Fonte: Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS).

Durante a primeira edição do Connectarch Summit o arquiteto Lula Gouveia, do SuperLimão Studio, destacou sua experiência em uma tribo indígena do Xingu e como as construções dessas aldeias são exemplos de arquitetura social, já que envolvem toda comunidade. O profissional lembrou das formas, dos materiais e técnicas utilizadas para se criar construções essencialmente sustentáveis e que inspiraram, por exemplo, o projeto da Toca do Urso para a Cervejaria Colorado, localizada em Ribeirão Preto (SP).

Fonte: Superlimão.

Nessa construção, buscou-se aproveitar o que já existia no entorno, como a copa de duas grandes árvores que sombreiam a área durante boa parte do dia. Seu grande salão circular foi enterrado e a terra retirada do solo foi realocada formando um talude de 3 metros ao redor do salão central, criando uma grande barreira de inércia térmica tal qual nas cavernas. O projeto não possui fechamentos, de forma que é sempre possível visualizar o jardim e o céu de qualquer ponto do espaço. Todo equilíbrio entre luz natural e artificial é atingido através de clarabóias e bandejas de luz.

Fonte: Superlimão. Entrada do bar.

“Como um todo, buscamos criar um ambiente que otimizasse os recursos naturais como ventilação, bandeja de luz, captadores de vento, umidificação natural, captação e reuso de água, pisos permeáveis e também o combate ao desperdício e reaproveitamento de materiais. As paredes de tijolos, por exemplo, foram assentadas utilizando uma parte da areia inerente do processo de filtragem da cerveja” diz Gouveia. Segundo ele, vários itens foram reaproveitados, como os barris que são os “dutos” de ar-condicionado do salão, não só por conta do apelo estético, mas também pela grande capacidade de carga da sua forma.

Materiais sustentáveis presentes em projetos

Para José Afonso Portocarrero é de fundamental importância que materias produzidos de maneira sustentável integrem os projetos arquitetônicos. “Podemos iniciar a mudança de maneira quase que didática sobre a necessidade do uso de técnicas e materiais que eram utilizados e foram deixados de lado”. Ele cita ainda o famoso arquiteto e urbanista Lúcio Costa e defende que o estudo e pesquisa são cruciais para um futuro mais sustentável. “[…] encarando com simpatia coisas que sempre se desprezaram ou mesmo se procuram encobrir, a oportunidade de servir-se delas como material para novas pesquisas, e também para que nós, arquitetos modernos, possamos aproveitar a lição da sua experiência […]”. Ele acredita e se dedica com afinco para que no futuro as novas construções adotem um caráter sustentável.

Fonte: Decortiles, produto da Coleção Eco.

A Coleção ECO uma série de produtos pensados para projetos que têm a sustentabilidade como estilo de vida. Ela busca o perfeito equilíbrio entre o essencial, bem-estar e o cuidado ambiental. Os produtos dessa coleção são desenvolvidos com reaproveitamento de matérias-primas e economia no uso de recursos naturais no processo de produção, ou seja, 70% da sua matéria é reciclada em um processo inovador, com técnicas sustentáveis. Elaborada através de técnicas que reduzem o consumo de energia e água, e certificado pela BRTÜV, os produtos ECO não utilizam matéria-prima in natura, oferecendo, assim, baixo índice de emissão de gases poluentes e menor impacto ambiental com o descarte de resíduos.

Ambientalmente responsável, esteticamente contemporâneo e versátil. Essa é a coleção ECO da Decortiles.

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