Artesania brasileira: Um patrimônio identitário

Artesania brasileira: Um patrimônio identitário

A sabedoria do Fazer Popular Brasileiroum bem material, um patrimônio e um traço da nossa identidade.

O Connectarch explora um pouco dessa joia nacional: o fazer brasileiro com toda sua sabedoria artesanal, incluindo recortes da obra de um dos nomes mais importantes do cenário da moda no Brasil, o estilista Ronaldo Fraga. As ricas criações que saem das mãos de brasileiros e brasileiras encantam ao mesmo tempo que garantem o sustento de famílias inteiras e perpetuam resistentemente em seus coletivos, de geração em geração. Acompanhe!

Crédito Augusto Pessoa
Crédito Augusto Pessoa

Por Jucelini Vilela

Cerâmica, madeira, palha, tecidos dos mais diversos, juta, folha de bananeira, cera de abelha, cipó, tinta de urucum, conchas, couro, penas, escamas de peixe, casca de coco. Essas são algumas das inúmeras matérias-primas que se transformam em bonecos, abajures, talheres, centros de mesa, vestimentas em geral, redes e rendas e que fazem parte da cultura artesanal brasileira. Trata-se de uma manifestação cultural riquíssima que muitas vezes ultrapassa gerações, perpetuando-se ao longo dos anos. Apresentando diferentes técnicas e peculiaridades, tal artesanato utiliza boa parte de sua matéria-prima a partir da fauna e flora nativas da cada região do país. Os processos de manufatura seguem majoritariamente rústicos e se transformam em objetos de desejo a partir das habilidosas mãos de artesãos e artesãs.

O estilista Ronaldo Fraga, mais que um entusiasta, um fomentador da artesania brasileira, desenvolve uma série de trabalhos com grupos de ‘artistas artesãos’ Brasil afora, como ele mesmo conta. “Meu trabalho com essas comunidades se confunde até com a minha própria formação. Desde o início do meu trabalho como estilista, era nesse lugar que eu gostaria de estar, o lugar de funcionar como ponte entre os diferentes brasis: o Brasil do feito à mão e o Brasil da indústria. Foi aí que eu construí a minha carreira. Obviamente, é um trabalho de minúcias, porque não é o olhar do designer, é uma via de mão dupla:  eu aprendo, eu ensino e às vezes eu aprendo muito mais do que ensino. É um pequeno olhar, uma pequena cor, um pequeno detalhe, uma dimensão que se aumenta ali, um acabamento que se faz aqui, que faz com que os produtos provoquem desejo em um; número maior de pessoas, mas, ainda assim, principalmente, preservando a cultura de quem fez.”

Vale ressaltar o embasamento que emprega em suas coleções, apresentadas nas passarelas, como no desfile que realizou em 2021, durante a 51ª SPFW – São Paulo Fashion Week. “O trabalho do ano passado, o mais recente nessa direção, foi o ‘Terra dos Gigantes’ no qual eu trabalhei inspirado nos grandes mestres do Cariri cearense. Tem um projeto muito interessante que são os Museus Orgânicos, onde os museus são as casas dos mestres e muitos deles têm um trabalho focado no couro, como o Espedido Seleiro. Mas, outros, são bens imateriais: é a música que se toca, é o jeito que se dança, é o trabalho que se faz, inclusive, com as ervas. Então, com isso, dá para entender a amplitude para se compreender o que é o saber popular e uma ‘terra gigante’, como é o caso do Cariri cearense”, explica Fraga. “Terra de Gigantes” levou muitos bordados em 100% linho e poucas estampas, numa explosão de cores, representando o universo multicolorido do Cariri cearense.

Coleção Terra de Gigantes – Créditos Augusto Pessoa

Difundir para preservar

A riqueza cultural do Brasil é tão diversa e gigante quanto suas dimensões geográficas e, segundo Ronaldo, tudo isso poderia ser melhor difundido e, consequentemente, preservado, por meio da educação, “para que o brasileiro entendesse a importância da valorização e da preservação dos saberes e fazeres tradicionais como a preservação e a valorização da própria história, da formação do povo brasileiro. No Ceará e em Pernambuco, por exemplo, temos muito de um artesanato, resultado de um encontro de culturas diferentes, como os povos originários, índios e cariris com os escravizados do norte da África, de origem muçulmana, que são os malês e os cristãos novos, que foram os judeus fugidos à época dos países ibéricos para o nordeste brasileiro. Então, muito das rendas, muito da arte do couro, muito da arte das tramas vem justamente do encontro desses três grupos. Assim, dá para entender a dimensão da importância em que se valorize o trabalho artesanal no Brasil, um dos países do mundo, até mesmo pela sua face mestiça, que tem um artesanato tão rico e tão diverso. Temos a arte da madeira, temos a arte da cestaria que não pode ficar para trás, nós temos o trabalho com rendas para cada região e estado do país, que revela muito a formação desses próprios estados. Temos o trabalho da cerâmica com barro, como no caso do Jequitinhonha ou o agreste pernambucano, lembrando aí o Alto do Moura, em Caruaru.”

Futuro

Crédito Augusto Pessoa

Formado em Design de Moda pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pós-graduado pela Parsons School of Design de Nova York e pela Central Saint Martins de Londres, Ronaldo Fraga teve criações apresentadas em diferentes países dentre os quais estão Japão, Holanda, Espanha, Uruguay, Bélgica, Chile, Argentina, México, Angola. Incansável, ele conta que está finalizando um projeto na região de Brumadinho, um dos maiores municípios de Minas Gerais, região sudeste do país. “Um lugar que foi atingido por um crime ambiental com a barragem que se rompeu e é, também, um lugar extremamente diverso. Temos ali a cerâmica, o bordado, uma gastronomia e um trabalho musical vigorosos, quilombos bem fechados e preservados culturalmente falando. O trabalho desenvolvido ali foi um trabalho de turismo solidário, foi criar um produto e criar caminhos possíveis para que as pessoas possam ir, uma vez que pelas vias normais elas não iriam. Então, estamos lançando agora esse projeto que chamamos de ‘Montanhas de Minas’ e é um projeto que é bem bacana e ultrapassa até os meus próprios limites como estilista, que sempre foi o meu desejo: romper a moda, romper o limite da roupa. E nesse lugar ela consegue fazê-lo”, finaliza Ronaldo. Assim, o turismo segue seu curso trazendo do mundo inteiro interessados nas belezas naturais e sua biodiversidade, na sua história, mas também na sua gente batalhadora e talentosa, como só aqui se vê.

Assista aqui os melhores momentos da palestra de Ronaldo Fraga durante o Connectarch Summit 2021.

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