O Legado da Semana de Arte Moderna

O Legado da Semana de Arte Moderna

Também chamado de ‘Semana de 22’, evento consolidou o início do modernismo no Brasil

Capa do material de divulgação da exposição Ilustres Modernistas
Setembro, 1997.

O ano era 1922 e o mundo ainda sentia o amargo gosto do pós-Primeira Guerra. As mudanças estavam acontecendo em todas as esferas, principalmente, políticas, e as mentes intelectuais estavam em plena ebulição. Por aqui, o ano de celebração do centenário da Independência foi o cenário perfeito para artistas e pensadores da época declararem o rompimento com a cultura tradicional. Era o fim das correntes literárias e artísticas ligadas ao parnasianismo, ao simbolismo e à arte acadêmica. Então, com o compromisso de uma nova visão estética e forte comprometimento com a independência cultural, deu-se início à famigerada Semana da Arte Moderna, que definiria os rumos culturais dos próximos 100 anos. Para conhecermos um pouco mais sobre esse importante período da nossa história, o Connectarch conversou com Andrea Caruso, diretora do Theatro Municipal de São Paulo, palco do festival, e com Tasilinha do Amaral, sobrinha-neta de Tarsila do Amaral, um dos grandes nomes das artes no Brasil e cuja relevância na Semana de Arte de 1922 é inquestionável.

Capa do catálogo da Semana de Arte Moderna, 1922. Imagens: Acervo Theatro Municipal de São Paulo

A Semana de Arte Moderna de São Paulo aconteceu entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922 no Theatro Municipal de São Paulo, e marcou a consolidação do modernismo no Brasil. Foi um momento de ruptura entre as culturas tradicionais, impulsionado por grandes nomes da época como Mário de Andrade – um dos principais articuladores da manifestação –Oswald de Andrade, Graça Aranha, Menotti del Picchia, Ronald de Carvalho, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti e Guiomar Novaes. O que poucos sabem é que a Semana de Arte Moderna de 1922 não durou uma semana, mas apenas três – intensas – noites, como conta a diretora geral do Theatro Municipal, Andrea Caruso. “Foram três noites de apresentações de dança, música, recital de poesias e exposição de pinturas e esculturas no Theatro. O músico Heitor Villa-Lobos, que se tornou uma das principais referências da construção da música brasileira no século 20, esteve presente todos os dias, tocando obras de câmara de sua primeira fase. Era a primeira vez que ele se apresentava em um grande teatro.”  

Heitor Villa Lobos. Imagens: Acervo Theatro Municipal de São Paulo
Guiomar Novais. Imagens: Acervo Theatro Municipal de São Paulo

O evento, que questionava paradigmas estéticos e culturais e queria romper com o conservadorismo vigente da época, foi muito bem sucedido em seu intuito e cujos desdobramentos, entre os quais a antropofagia de Oswald de Andrade, ganharam, e ganham, repercussão até hoje, segundo Andrea. “Foram as reverberações e posteriormente as revisões da Semana que fizeram dela um marco. Não em vão que, com o passar dos anos e das décadas, a Semana segue sendo retomada e revista, com os filtros e questões eminentes de cada efeméride. O próprio Theatro Municipal de São Paulo realizou diversos eventos de comemoração da Semana, ora celebrando e homenageando os membros do grupo modernista, ora propondo o revisionismo e evidenciando novos artistas e intelectuais.”  

Entre os principais pontos da Semana, segundo Andrea, está o fato de “o nosso modernismo, ou nossos modernismos, serem assuntos de diferentes gerações e seguem sendo matéria de discussões, de embates estéticos e artísticos. Temos, no Theatro, registros das comemorações feitas a cada década, a partir de 1972, quando se comemorou o cinquentenário da Semana, e, com o passar dos anos, observamos as mudanças de perspectivas, abrindo novos leques de reflexão, sobre o que se disse e o que se registrou, o que não foi dito, o que faltou. Se faz sentido voltar-nos à Semana é porque as reivindicações daquele momento ainda ressoam como necessárias nos dias de hoje. De modo diverso, evidentemente, mas há o aspecto de quebra de paradigmas, de disputa de narrativas e espaços que continua incomodando, sendo questionado. Talvez em uma versão mais multitudinária.”

Como legado da Semana, Andrea pontua que “cem anos depois, ainda que cercada de controvérsias, a Semana persiste em provocar a sociedade brasileira de 2022. Hoje, diferentes atores colaboram para a revisão crítica da Semana e, neste ano, a cidade de São Paulo pulsará diversas programações culturais do centenário, demonstrando movimentos de transformação das narrativas históricas do tema, contribuindo para a construção de imaginários artísticos e culturais mais plurais.”

Antropofagia

Não obstante, um dos nomes de que muito se fala quando o assunto é a Semana de Arte Moderna de São Paulo, e que impulsionou a antropofagia de Oswald de Andrade, é Tarsila do Amaral. Mesmo sem ter participado presencialmente do festival – ela estava em Paris – sua relevância é extrema, confirmada tanto pela história quanto por sua sobrinha-neta, Tarsilinha do Amaral de quem foi muito próxima até seu falecimento, quando tinha apenas oito anos. “Ela não participou diretamente aqui, mas como era muito amiga da Anita Malfatti, ficou sabendo da Semana e de todo o movimento e, quando ela retorna ao Brasil, Anita a apresenta para o grupo modernista. É onde tudo começa e Tarsila passa a ser a figura central, muito pela brasilidade, pois suas criações iam ao encontro do que os modernistas estavam querendo.” Tarsilinha conta que eles ansiavam ir para outros países e trazer as coisas novas que aconteciam por lá em termos artísticos, mas sempre valorizando o Brasil. E é quando Tarsila passa a ser, também, uma inspiração. “Suas obras inspiraram o livro Pau Brasil (1925) de Oswald de Andrade, assim como o título Feuilles de Route (1924) de Blaise Cendrars, o amigo francês do casal que gostava muito do Brasil.”

Para Tarsilinha, o pensamento artístico da tia foi crucial para o país e sua história. “O movimento modernista influenciou até politicamente o Brasil, pois eles trouxeram ideias novas nas artes e ideias novas geram pensamentos novos.” Mas, o ponto mais importante desse momento histórico é a obra o Abaporu (1928). A tela foi criada por Tarsila para presentear o então marido, Oswald de Andrade que, ao colocar os olhos sobre ela, ficou encantado e cujos traços despertaram nele a ideia de criação do movimento Antropofágico. Considerada uma obra-prima da artista, o desenho sugere retratar a valorização do trabalho braçal com a figura de pés e mãos enormes, ao mesmo tempo que, contrariamente, desmerece o intelectual com sua cabeça minúscula. Tal manifesto de Oswald foi uma espécie de manifestação cultural que marca a primeira fase do modernismo e que supõe, ao usar o termo ‘antropofágico’ – o ato de devorar a carne de outra pessoa –, transfigurar a cultura, principalmente a europeia, conferindo assim, o caráter nacional. Desse modo, o nome Abaporu – do tupi-guarani ‘homem que come gente’ – soa mais que perfeito.

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.” (Trecho do manifesto de Oswald de Andrade)

Tarsile-se


Crédito: divulgação – imagem cedida gentilmente por Tarsilinha do Amaral

Tarsila do Amaral nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Capivari, em 1886. Foi uma grande pintora e desenhista brasileira e conquistou reconhecimento internacional com a brasilidade intrincada em suas obras. Também foi membro do Grupo dos Cinco, formado por Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mario de Andrade e Oswald de Andrade, considerados os cinco artistas mais influentes da arte moderna brasileira.  

Mário de Andrade fotografado por Benedito Duarte

Hoje, está entre as mais importantes artistas brasileiras, e seu Abaporu, uma das telas mais conhecidas mundialmente, infelizmente, não está em casa. Foi arrematada, em menos de dois minutos, em um leilão em Nova York por US$ 1,3 mi em 1995 pelo colecionador Eduardo Constantini, e atualmente está em exibição no Museu de Arte Latino-Americana de Bueno Aires, na Argentina, o MALBA.

Além, claro, da genialidade da artista, esse reconhecimento também faz parte de um trabalho dedicado e carinhoso desenvolvido por sua sobrinha-neta, igualmente Tarsila do Amaral. Homônima à tia, Tarsilinha, como é conhecida e como era tratada por ela –  e cujo nome a enche de orgulho –, está à frente de todas as ações que são feitas para preservar, difundir e eternizar a arte de Tarsila. “Hoje, tenho responsabilidade com a minha tia, com a arte brasileira e até com o meu país, de poder disseminar todo esse legado aqui e lá fora”, pontua.

Sempre com muito critério e com atenção especial à qualidade, Tarsilinha tem popularizado a arte da tia, organizando exposições, livros e outros produtos, inclusive, licenciamentos. “Os licenciamentos aproximam muito o artista das pessoas. Sempre que fui, e até hoje, quando vou a museus, saio de uma exposição e quero comprar um livro, um caderno, até um lápis. Sempre busco algo que me lembre do artista”, conta Tarsilinha ao falar sobre a importância e sua vontade que as criações da tia sejam sempre vistas e lembradas. “Acho que minha tia merece ser conhecida, principalmente, fora do Brasil”, finaliza. A artista Tarsila do Amaral faleceu em 17 de janeiro de 1973, aos 86 anos, em São Paulo.

Celebrações do centenário no Theatro Municipal

Sendo o Theatro Municipal de São Paulo o epicentro da Semana de Arte Moderna de 1922, não poderia ser diferente ter uma extensa programação cultural para as celebrações desse centenário. “Para as comemorações, no período de 10 a 18 de fevereiro, ocorreu uma maratona com a apresentação completa das Bachianas de Villa-Lobos, pela Orquestra Sinfônica Municipal, a estreia da peça Muyrakytã, com coreografia de Allan Falieri para o Balé da Cidade de São Paulo, o lançamento da série Identidade Brasileira, do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, um programa da Orquestra Experimental de Repertório com peças de Villa-Lobos e Radamés Gnatalli e um programa de música coral brasileira especialmente preparado pelo Coral Paulistano para comemorar a Semana”, conta a diretora, e acrescenta: “além disso, teve uma noite de sarau com a participação de importantes grupos como As Clarianas, Sarau do Binho e Sarau das Pretas; um show da rainha do carimbó, Dona Onete e da DJ Ju Salty; um ciclo de cinco encontros no Salão Nobre do Theatro discutindo aspectos relevantes da semana e suas atualizações; Expedições Modernistas, em parceria com o Museu da Cidade e a Biblioteca Mário de Andrade; dois processos teatrais que trazem para o diálogo os autores Oswald de Andrade e Graciliano Ramos; e o lançamento do projeto Essa noite se improvisa!, com apresentação do MC Max BO e DJ Nuts e com a participação livre de artistas que se inscreveram duas semanas antes, pelo site do Theatro. Posteriormente, no decorrer do ano, teremos outras programações comemorativas, como, por exemplo, a montagem da ópera Café, com libreto de Mário de Andrade e música inédita de Felipe Senna”, finaliza Andrea Caruso.

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