A casa enquanto função

A casa enquanto função

 Entenda as novas relações e funções do morar, a casa enquanto função, pelo arquiteto Marcelo Alvarenga

Imóveis com muros baixos, muitas vezes ornamentados por balaústres, portões vazados, portas que acessavam direto a rua e, não raro, um hall de entrada como prenúncio dos espaços sociais, eram bastante comuns em construções de bairros residenciais das grandes metrópoles. A maneira como as casas eram feitas revelava a relação de seus moradores com a rua e a cidade: havia um interesse pelo que se passava do lado de fora, o vínculo de convivência com o externo era mais forte. Contudo, em meados dos anos 80 esse panorama começou a mudar. Muros altos e portões completamente fechados passaram a dominar a paisagem urbana.

Para o arquiteto Marcelo Alvarenga, da Play Arquitetura, esse novo padrão emergiu não apenas pela preocupação com a segurança, mas também pelo desejo de maior privacidade. “A pessoa quer se voltar para seu próprio jardim, para o seu convívio interno, valorizar seu mundo, se desligando do externo de alguma forma. Então, o interesse pela rua diminui. Em São Paulo mesmo tem muitas construções completamente cegas para a rua”, comenta.

O movimento de se voltar para dentro trouxe a valorização das áreas externas, transformadas em espaços de relaxamento.  “É uma relação assim: por que as pessoas querem morar em casas? Porque casas têm espaços de lazer, jardim. Você não mora na casa pelo programa em si. Quarto, sala e cozinha, os apartamentos também têm. Agora, na casa há uma relação com a terra, com o espaço externo privado, que ganhou muita importância no desenho delas. E, geralmente, eles não estão relacionados com a rua”, explica o arquiteto.

Marcelo explica que essa mudança inverteu a maneira como os projetos são pensados: garagem e áreas de serviços vieram para frente, enquanto as áreas sociais foram para o fundo do terreno. Para ele, isso é um desafio para muitos profissionais e clientes, uma vez que é preciso fazer um percurso maior para chegar ao living, por exemplo, e pensar em uma maneira na qual a porta não abra para um muro.

Espaços sem frescura e de autocuidado

Além da transformação da relação entre o interno e externo, em 2020 o mundo foi atropelado pela pandemia provocada pelo novo coronavírus, que catalisou uma maior questão de intimidade nos lares. “Parou com frescura, não existem mais espaços intocáveis. Eu acho que as pessoas relaxaram um pouco e isso é bom porque todos os ambientes se tornaram utilizáveis”, diz Marcelo.

A necessidade de adaptação da casa para ser também um espaço de trabalho fez as pessoas voltarem sua atenção para os lugares onde vivem, e trouxe uma nova dinâmica para o dia a dia. “Não temos mais frescura de falar ao vivo. Você pode estar em qualquer lugar, pode estar descabelado, com seu gato passando atrás. Não deixa de ser uma informalidade. Todo mundo agora tem espaços para fazer yoga, pilates… Mesmo que seja o quarto ou a sala. Há uma mistura de atividades”, conta.

Mais do que nunca, morar rima com bem-estar. Refletido no design de interiores, esse verso se traduz em ambientes aconchegantes, gostosos de se passar o tempo. Marcelo revela que atualmente o décor de clientes ligados em tendência tem trazido tons terrosos e poucas cores. Segundo ele, verdes e colorações off-white, ligados às sensações de relaxamento e conforto, estão em alta. “Mas isso varia muito. No nosso escritório os perfis dos clientes são muito misturados”, afirma.

Agora, um movimento comum a todos é a ligação da casa com questões de autocuidado presente em banheiros e cozinhas, principalmente. “Nós percebemos uma preocupação das pessoas em poder cozinhar comidas mais saudáveis, em banheiros que convidam ao relaxamento, uns ambientes que dão um soninho”, diz.

Plot Twist

Ao mesmo tempo em que a pandemia impulsionou o movimento – e o neologismo – de “ensimesmamento” das moradias, as restrições de convívio com a cidade podem ter feito renascer o desejo do convívio com o externo. É crescente o anseio por passeios e viagens, principalmente por parte daqueles que vivem em espaços menores, como apartamentos, onde também houve uma valorização maior de varandas e integração do verde ao ambiente.

Para Marcelo, as mudanças da relação com a casa vão perdurar e o próximo desafio será justamente o equilíbrio entre o que se pode viver dentro, sem esquecer do que se pode aproveitar lá fora. “De alguma forma, eu acho que vamos sentir esse impacto como uma coisa permanente. Mesmo que depois se volte a balancear a vida in e outdoor”, finaliza o arquiteto.

Quem é Marcelo Alvarenga:

Marcelo Alvarenga, da Play Arquitetura

À frente da Play Arquitetura, listado entre os novos escritórios de destaque no Brasil e no mundo pelas revistas. Paralelamente ao trabalho de arquitetura, fundou em 2013, juntamente com Susana Bastos, a marca de desenho de mobiliário e objetos ALVA design. O arquiteto também desenvolve trabalhos para teatro, sendo autor dos cenários dos espetáculos Vinte (Cefart), Nós, Outros (Grupo Galpão), Preto e Por que Não Vivemos? (Cia. Brasileira de Teatro), todos com direção de Márcio Abreu. Formado pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), com pós-graduação em Design de Mobiliário pelo SENAC SP, Marcelo foi indicado ao prêmio Shell 2020 pela cenografia do espetáculo Por que Não Vivemos? (Cia. Brasileira de Teatro), ao Shell 2018 pela cenografia do espetáculo Outros (Grupo Galpão) e venceu as premiações Casa Vogue Design 2018 – ALVA design, 10º Prêmio IAB-MG 2008 – Projeto Loja Coven e o 4º Prêmio Jovens Arquitetos, Edição 1999 – Projeto Casa Bibi.

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